A visibilidade como armadilha

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Imagem simbólica sobre exposição nas redes sociais, com a figura humana observada à distância, representando a visibilidade como forma de controle
A visibilidade, quando naturalizada, deixa de ser escolha e passa a moldar comportamentos.

Em tempos de redes sociais, a frase “a visibilidade é uma armadilha” ganha sentido mais agudo do que nunca. Ela foi formulada por Michel Foucault para explicar como, em estruturas de poder, o simples fato de ser visto pode passar a controlar comportamentos sem que ninguém precise ordenar nada de forma explícita. O indivíduo começa a agir como se estivesse sempre sob olhar constante — e, com isso, acaba regulando a si mesmo.

Nas redes sociais, isso acontece de maneira voluntária e quase imperceptível. Não existe mais apenas a vigilância externa, mas a expectativa permanente de exposição. Expor-se virou forma de existir — como se mostrar passou a ser sinônimo de ser relevante, de pertencer. A presença midiática excessiva foi naturalizada a tal ponto que passou a funcionar como critério implícito de legitimidade social.

O fenômeno se torna ainda mais claro quando observamos figuras que romperam com essa lógica. Pense em Robert John Mutt Lange e Dalton Trevisan. Ambos alcançaram reconhecimento enorme por suas obras, mas mantiveram uma vida longe dos holofotes das redes e da mídia de massa. Eles não transformaram suas existências em espetáculo nem construíram personas públicas incessantemente visíveis — e, justamente por isso, muitas vezes são vistos como “estranhos”. Essa impressão não revela nada sobre suas vidas, mas tudo sobre a expectativa social contemporânea de que quem não se expõe, não existe de verdade.

É aqui que a armadilha de que fala Foucault se revela com clareza. A visibilidade prometida como libertadora pode, na verdade, funcionar como uma forma de normalização: quanto mais alguém se exibe, mais previsível e ajustável esse alguém se torna ao olhar alheio. A vida deixa de ser um espaço de criação e passa a ser um campo de performance.

No modelo panóptico descrito pelo filósofo, o indivíduo ajusta seus comportamentos por medo de ser observado a qualquer momento. Nas redes sociais de hoje, muitos ajustam seus comportamentos por desejo de serem vistos, reconhecidos e validados. A diferença é sutil, mas fundamental: a vigilância deixa de ser imposta e passa a ser autoimposta.

Talvez seja por isso que figuras discretas incomodem tanto. Elas nos lembram de algo que nossa cultura da exposição frequente tende a esquecer: existir não exige estar sempre em exibição. Escolher quando não aparecer pode não ser evasão — pode ser uma decisão consciente de preservar o próprio olhar e o próprio tempo.

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